domingo, 14 de setembro de 2008


"É um monstro no qual se desenvolveu até o absurdo essa faculdade que temos de extrair pensamentos de nossos atos ao invés de identificar nossos atos com nossos pensamentos.
Se falta enxôfre à nossa vida, quer dizer, se lhe falta uma magia constante, é porque nos apraz contemplar nossos atos e nos perdemos em considerações sobre as formas sonhadas de nossos atos, ao invés de sermos impulsionados por eles.
E esta é uma faculdade exclusivamene humana. Diria mesmo que é uma infecção do humano que nos estraga certas idéias que deveriam permanecer divinas pois, longe de acreditar no sobrenatural, o divino inventado pelo homem, penso que foi a intervenção milenar do homem que acabou por nos corromper o divino.
Todas nossas idéias sobre a vida têm de ser revistas numa época em que nada mais adere à vida. E esta penosa cisão é motivo para as coisas se vingarem, e a poesia que não está mais em nós e que não conseguimos mais encontrar nas coisas reaparece de repente, pelo lado mau das coisas; e nunca se viu tantos crimes, cuja gratuita estranheza só se explica por nossa impotência em possuir vida.
[...] Quando tudo nos leva a dormir, olhando com olhos atentos e conscientes, é duro acordar e olhra as coisas como num sonho, com olhos que não sabem mais para que servem e cujo olhar está voltado para dentro. É assim que aparece a idéia estranha de uma ação desinteressada, mas que é ação de todo modo e mais violenta por ladeara tentação do repouso.
Toda verdadeira efígie tem sua sombra que a duplica; e a arte se instala a partir do momento em que o escultor que modela acredita liberar uma espécie de sombra cuja existência dilacerará seu repouso."
Antonin Artaud
OBS: impressionante como isso é atual, escrito em 1964.

Nenhum comentário: